Tenho falado com alguns amigos que estão em crer que em 2009 isto tem todas as condições necessárias para, mesmo não dando uma volta, permitir algumas surpresas no terreno político. Lembram-me que o governo é medíocre e vive do espalhafato e do
show-off que marca a espuma dos dias; invocam a gravidade da crise, cujos efeitos, nomeadamente no emprego, serão provavelmente muito piores do que aquilo que é previsto pela maioria dos colunistas da área; e recordam também - e bem -, que a oposição com assento parlamentar é miserável, talvez mesmo mais miserável do que a
situação. Se a isso somarmos um cada vez maior alheamento das pessoas face à baixa política (que é a que existe e aquela que os tugas lobrigam), e que no caso de alguns concidadãos chega ao ponto de uma justificadíssima revolta, dizem-me estar presentes as condições para que surjam as tais surpresas. Eu espero que eles tenham razão mas faço profissão de fé no meu cepticismo.
Li aqui há dias, já não sei onde, que
"as revoluções não nascem da miséria, nascem da esperança". Se bem interpreto o que se pretende dizer, a tese tem (historicamente e não só) algum merecimento. Ora, sucede que se bem observo à minha volta, a esperança é ingrediente que por estes dias anda muito lá por baixo. E a isto acrescento eu que dificilmente há vitórias políticas se estas não forem antes trabalhadas na frente cultural ou junto da sociedade civil, em proximidade com associações locais ou associações de causas que efectivamente mobilizem franjas significativas da população. No fundo, chegar - entre eleições, como tantas vezes lembra o
Manuel Azinhal -, à sociedade civil, ao cidadão comum - porque o
incomum, esse, já está doutrinado. Ora, será que esse trabalho de casa foi feito?
Claro que um sucesso eleitoral não é impossível - e eu diria mesmo que é desejável que venha a verificar-se. Acredito até que a esmagadora maioria das pessoas não acompanhe o meu cepticismo e permito-me sustentar esta convicção na quantidade de novos projectos políticos que entenderam ser 2009 um bom ano para iniciar o percurso: não faltam aventuras, desde aquele cavalheiro que demandou Timor por barco e entendeu por bem pirar-se ao primeiro aviso da marinha adversária (e que até
tirou um coelho da cartola para o Parlamento Europeu), até um mais enigmático MMS (ou coisa que o valha), que ninguém conhece mas que tem verba bastante para encharcar Lisboa de
outdoors que, como é sabido, são baratíssimos. A estes, podemos juntar os partidos que correm por fora. Descontando a maior parte deles, que têm há anos o objectivo único de se apresentar a votos de tempos a tempos e beber uns copos, quer parecer-me que na verdade só duas dessas propostas que já estão no "mercado" têm reais hipóteses de, pelo menos, causar prejuízos sérios: o
PNR, evidentemente, na medida em que bem ou mal representa uma corrente de pensamento em ascensão por toda a Europa e porque diz em voz alta o que boa parte dos portugueses pensam apenas para com os seus botões; e a
Nova Democracia (que hoje elegeu nova líder - ainda o
Jorge Ferreira explicará ao país porque não avançou...), esta nomeadamente no que respeita à sua
candidatura unipessoal pelo círculo de Braga. O resto não conta.
Mas não querendo - longe disso - desanimar as militâncias: não há impossíveis e, com convicções inabaláveis, o céu é de algum modo o único limite; e acreditem os meus caros amigos que eu posso estar errado - até porque não acerto sempre. Pode acontecer até o que há alguns dias era impensável: que com a abstenção, a revolta, a miséria - o nojo, até (e sobretudo)! -, por uma vez a coisa mude... e mude sem ser para que tude fique na mesma.